sábado, 2 de abril de 2011

Texto sobre a forma da FCCR conduzir a cultura, ou não cultura?!






A mensagem abaixo foi escrita pelo Fernando Rodrigues e encaminhada às redes virtuais de discussão. Tive sua permissão para veicular nesse blog e assim, fazer essa informação chegar ao maior número de pessoas possiveis. 

São José dos Campos vive em constante estado de ações veladas, por parte do poder público, que impõe sua vontade quanto ao que acham ser um bem para a cidade.

Abaixo o texto:

Aos  arte-educadores, amigos e companheiros de luta;

Gostaria de usar esse espaço, primeiramente para me dirigir aos  arte-educadores (a FCCR designa monitores) que prestam ou que pretendem futuramente prestar serviços para a Fundação Cassiano Ricardo.  Mas dada a gravidade do assunto e a política continuada de desrespeito e de retaliações da administração pública municipal  (vide em anexo o texto da Jacqueline para o caso Bola de Meia e Secretaria de Educação) acredito ser o assunto de interesse de todos os profissionais de cultural da cidade. Por isso esse Fórum se torna também o ambiente ideal para debatermos esse problema.  
Como o texto será um pouco longo, resolvi colocar no início a questão primordial para esse chamado  e por isso começarei pelas conclusões e aos que se interessarem pelo assunto, desenvolvo posteriormente argumentos e justificativa.

Assunto:
 A FCCR dando continuidade a sua política de soluções de gabinete elaborou um Novo Quadro de avaliação para Arte-educadores que, apesar de cheio de lacunas e incompleto, se mostra  um péssimo instrumento de avaliação para melhoria da qualidade do Projeto Arte nos Bairros, mas, um excelente mecanismo de  coerção e retaliações aos arte-educadores  que prestam serviços à Instituição.  
Por isso, estou propondo a organização de uma reunião entre os Arte-educadores e, posteriormente, Arte educadores e Diretoria Cultural,  para discutirmos propostas e sermos realmente tratados como parceiros do Projeto (colocação do Presidente da Fundação) e não como meros receptores passivos de propostas de gabinete que nascem com a intenção primordial de facilitar a vida burocrática da instituição e não de  aperfeiçoar o Projeto Arte nos Bairros, que existe há anos, sem uma proposta pedagógica clara.  

Novo quadro de Avaliação de Monitores (arte-educadores)

No fim do ano passadotivemos uma reunião com o Diretor Cultural e a chefe de Depto. De Ação Cultural Descentralizada, onde nos foi comunicado sobre a criação desse quadro de avaliação. Porém,  era mais uma reunião apenas para nos comunicar novas normas, como tem sido de praxe, nessa e nas outras gestões, e sequer os itens de avaliação nos foi apresentado.  
Na última atribuição de aulas (que nem todos os monitores credenciados ficaram sabendo, mas isso é outro desresp..., quer dizer é outra história), nós,  arte-educadores  tivemos que assinar no termo de credenciamento,  a concordância com o novo Quadro de Avaliação elaborado pela instituição. O Quadro é cheio de lacunas, que a funcionária responsável pelo credenciamento não sabia nos explicar, mas era bastante claro nos novos poderes que a FCCR instituía pra si, a partir de agora;  a possibilidade de diminuição pontos na tabela e o descredenciamento de orientadores artísticos.
Esse quadro de avaliação tem 5 tópicos com diferentes pontuações, e prevê punição ou desligamento do orientador, caso não seja alcançada a pontuação indicada, segundo os indicadores que seguem abaixo:
“A manutenção do contrato do monitor dependerá da avaliação mensal com pontuação mínima de 7,0 a dez pontos considerando os critérios descritos no Quadro de Avaliação periódica”. (texto da FCCR)
1 - Frequência do monitor – 2 pontos
2 - Adequação da oficina ao objeto do edital (descrição) e técnica empregada na transmissão do conhecimento ao aluno – de 0 a 5 pontos
3 - Participação nas atividades correlatas promovidas pela FCCR ( reuniões, cursos, oficinas abertas, apresentações e mostras de trabalho do projeto)  - 00 ou 01 ponto
4 - Atendimento às regras estabelecidas pela FCCR e tratamento adequado com a equipe do espaço cultural e alunos das oficinas -  00 ou 01 ponto
 5 – Organização do espaço físico e dos materiais disponibilizados.  -  00 ou 01 ponto
Pontuação total    10 pontos.

Dos critérios levantados acima, o único que tem uma regra objetiva de pontuação é a frequência do monitor que está estabelecida da seguinte maneira:
2,0 pontos – 100% de frequência ou com atestado médico.
1,0  - Frequência menor que 100 e maior que 80
0,0 -  Frequência menor que 80 e incide rescisão contratual.

Notem que o orientador que dá aula uma vez por semana e precisar faltar nesse dia sem justificativa médica, terá frequência de 75%, terá pontuação 00  e nesse caso está arriscado a rescisão contratual, posto que a avaliação é mensal.
Essa, porém é apenas a ponta do conjunto de incongruências da proposta de avaliação  para o Projeto Arte nos bairros. O pior fica realmente para o outro conjunto de avaliações. Questões que não estão respondidas:
Quem fará essas avaliações e dará pontuação?
Como se avaliará a técnica de transmissão de conhecimento ao aluno?
Como avaliar o projeto pedagógico do arte-educador  se ninguém  leu seu projeto de aulas? Alguém pediu ao orientador apresentar o projeto de aulas?
Somos obrigados a participar de reuniões e outros atividades? E se tivermos outros compromissos de trabalho? Seremos remunerados por essas atividades extras ou simplesmente teremos que estar à disposição da FCCR?
Porque não há espaço para a opinião dos alunos nesta tabela?
E uma questão pessoal: fazendo essa crítica ( e as demais que já fiz ao Projeto , ver em anexo) estarei infringindo o campo de tratamento adequado à equipe do espaço cultural?

Estas são apenas algumas das questões sérias não respondidas,  que me veem a cabeça e outras muitas ainda poderiam ser formuladas.  
Como o Projeto não tem coordenação pedagógica e nem os Coordenadores de Casa de Cultural teriam condições para essa avaliação (primeiro porque não acompanham as atividades de perto, e, também, não têm formação adequada para fazer esse tipo de avaliação, na maioria dos casos), ESTAMOS ENTÃO SIMPLESMENTE SUBMETIDOS A JULGAMENTOS ARBITRÁRIOS.
Acredito que só é possível avaliar o trabalho dos arte-educadores, conjuntamente com os mesmos, com uma coordenação pedagógica adequada e levando em conta o projeto de cada artista-professor e suas dificuldades práticas com a turma naquele espaço.  Só assim, poderíamos ter uma melhora significativa do processo, ano após ano, com a correção dos equívocos (se houver) mas, principalmente, compartilhando os sucessos obtidos pelos participantes, melhorando o projeto como um todo.  
Em minha opinião, esse Quadro de Avaliação apresentado pela FCCR, é um péssimo proposta para  avaliar e propor mudanças substantivas no projeto, mas, o que é muito grave, ótimo mecanismo de punição e retaliação aos prestadores de serviço que possam ser considerados  “incômodos”.

Transparência

Transparência nunca foi o ponto forte da instituição em suas formas de elaboração de atividades, vide os recentes processos impetrados contra ela no Ministério Público.  Uma das raras áreas protegidas de possibilidades de retaliação e punição da Instituição, era o Projeto Arte nos Bairros, que apesar do sistema de credenciamento caótico e passível de várias críticas, firmava um sistema de pontuação que garantia certa imparcialidade na escolha dos arte-educadores.  Como, além de prestadores de serviço, somos também  militantes da área cultural e temos a obrigação de olhar criticamente a política cultural e os gastos com dinheiro público realizados pela Instituição, o sistema de credenciamento era uma proteção contra retaliações. É JUSTAMENTE ESSA ÚLTIMA PROTEÇÃO QUE CAI POR TERRA COM A IMPLEMENTAÇÃO DO NOVO SISTEMA DE AVALIAÇÃO. 
Algumas dessas questões já foram encaminhadas por mim ao Diretor Cultural Claudio Mendel, porém ele considerou que essas são “besteiras  pessoais e não profissionais”, que eu não consigo “sustentar com lucidez”.  Por considerar justamente o contrário, que estas são questões coletivas e que dizem diz respeito à política cultural do município, faço questão de expor meus argumentos publicamente, para que fique aberto a avaliação dos demais arte-educadores e demais interessados.  E, em caso de houver mais pessoas que se identifiquem com essas questões, possamos recolocar a discussão com a Fundação, mas dessa vez coletivamente.

Uma questão de todos

Quem acompanha o histórico da relação entre artistas e produtores culturais com a FCCR, nos últimos 14 anos,  sabe que sofremos um processo contínuo de isolamento e distanciamento em relação as decisões culturais tomadas pela instituição na cidade.  O triste texto do Presidente da Fundação Cultural, Sr. Mario, presidente da instituição (ver em anexo), mostra apenas seu desconhecimento sobre as discussões da cultura na cidade.   Não só desconhece a área, seus artistas, mas também o discurso dos seus antecessores no cargo. Ele se considera um novo Prometeu, trazendo a chama da eficiência tecnocrática a esta terra obscura da cultura. Infelizmente, para nós, ele não sabe que é apenas mais um presidente da FCCR com sua sapiência industrial. Quem acompanhou o discurso de posse do Sr. Gervásio Diniz (que também veio por ordem na bagunça e deixou para quem vive da cultura, um legado de arbitrariedades) verá um espelho das mesmas ideias.  Na mitologia criada por si próprio para lidar com as críticas que recebe, poderíamos dizer que ao invés de um “Prometeu”, ele não passa de um novo “Torquemada” com sua tocha para acender fogueiras e purificar de ideias impuras esses  “Templários” da cultura.      

Finalizando o texto e abrindo a discussão

O Projeto Arte nos Bairros tem várias outros problemas e questões que devem e merecem ser discutidos. Quem sabe coletivamente poderemos ampliar o escopo da discussão, pois a questão dos projetos de formação artística é fundamental para a saúde criativa da cidade.
É  inaceitável  o tratamento que a FCCR veem dando aos seus “parceiros”(palavra do Sr. Mario – Presidente da instituição).  Como colaboradores é essencial sermos pelo menos   ouvidos e não sermos tratados meramente como prestadores de serviço. A verdade é que vivemos um  limbo dentro da instituição, pois não somos funcionários e também  não somos os tais clientes (a forma que o presidente da Instituição se refere aos cidadãos). Somos tratados como meros prestadores de serviço de uma instituição, que já não diferencia a natureza do trabalho de um ENCANADOR da de um EDUCADOR.



Fernando Rodrigues
Ator, diretor e professor de teatro
Bacharel em Direção teatral pela USP e Mestre em Pedagogia do teatro pela mesma instituição.  


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