sábado, 2 de abril de 2011

A Incineração agrava a mudança climática

A matéria a seguir foi retirada do website MIRADAGLOBAL.COM
  



As emissões da incineração não se devem comparar com aterros sanitários de dez anos atrás mas sim com as emissões da reciclagem, da reutilização, da compostagem ou da redução de residuos.
Joan Marc Simón


Europa / Ecologia – O que é melhor para o meio ambiente, as emissões resultantes da produção de um produto ou as emissões resultantes da produção do mesmo produto duas vezes? A resposta desta simples pergunta nos permite entender por que a incineração agrava a mudança climática: é impossível lutar contra o aquecimento global , queimando um resíduo que poderia ser reciclado ou reutilizado, pela simples razão de que se deve adicionar as emissões resultantes de produzir o produto de novo (extração, produção, transporte, etc...) às emissões da queima.
Na atualidade, estima-se que a porcentagem reciclável, reutilizável ou compostável se situa entre um 60% e um 90% dos resíduos totais. Em Flandes, Bélgica, reciclam um 75% dos resíduos. Se na Espanha (cuja porcentagem de reciclado se situa em torno a 30%) houvesse a vontade política de chegar a porcentagens similares, o debate sobre a necessidade de incineração ficaria automaticamente obsoleto. 25% dos resíduos restantes podem ser estabilizados biologicamente (obtendo energia no processo) e ser enviados ao aterro enquanto se desenvolvem estratégias para reduzir paulatinamente a fração residual.
O debate sobre a incineração e a mudança climática só favorece à indústria incineradora , prejudicando o erário público, os cidadãos, as gerações futuras e o clima. A indústria incineradora se empenha em comparar a incineração com os aterros de dez anos atrás, onde a matéria putrescible apodrecia sem controle, emitindo metano (bem mais prejudicial que o CO2).
Este cenário já não é válido, pois a diretoria dos aterros (99/31/CE) encarregou-se de reduzir a matéria orgânica nos mesmos. Além disso, quando a indústria incineradora publica suas emissões deduz um 60% [1] do carbono emitido por ele ser biogênico (por exemplo, o que contém a matéria orgânica dos resíduos). Este fato "esconde" 60% das emissões e não considera que quando há uma boa separação da matéria orgânica e o papel se recicla, a parte biogênica se reduz consideravelmente. A própria indústria incineradora admite que, hoje, depois da coleta seletiva, a porcentagem de carvão biogênico representaria entre um 35% e um 48%. Este "matiz" faz com que as emissões de uma incineradora igualem às de uma planta de gás. Se incluíssemos todo o carbono biogênico na equação (tal e como exigem os cientistas do IPCC quando se comparam fontes de energia) veríamos como as emissões das incineradoras superam as de uma usina de energia que utiliza carvão [2].
Mas mesmo que fosse verdadeira a presença de um 60% de carvão biogênico nos resíduos, continua sendo um erro considerar estas emissões como neutrais, sob o ponto de vista do CO2, pois se a fração biogênica (sobretudo orgânica e papel) se compostasse, primeiro retirando energia com digestão anaeróbica e depois devolvendo o composto à terra, poderíamos ganhar um tempo precioso na luta contra a mudança climática. O que nos interessa é reduzir as emissões de CO2 o mais rapidamente possível, enquanto descarbonizamos nosso estilo de vida para atrasar a elevação da temperatura da Terra. Se o resíduo se queima, todo o carbono é levado diretamente à atmosfera; com a compostagem consegue-se atrasar este processo "seqüestrando-o" durante bons anos. Além disso, devolver o carbono à terra ajuda a lutar contra a desertificação num país como a Espanha, onde os solos são paupérrimos em matéria orgânica. Não esqueçamos que o desflorestamento é responsável por um 25% da mudança climática.

É surpreendente que alguns Estados como a Espanha dêem primas às incineradoras por sua produção de "energia renovável". Quando o que fazem é queimar resíduos que poderiam ser reciclados ou compostados (estima-se que um mínimo do 50% dos resíduos queimados ou enterrados na União Européia são recicláveis [3]) com a conseguiente economia energética e de recursos, assim como o melhor efeito sobre o meio ambiente que significa a reciclagem. 

As emissões da incineração não devem ser comparadas com os aterros de dez anos atrás, senão com as emissões da reciclagem, reutilização, compostagem ou da redução de resíduos. Além disso, no século XXI deve-se promover formas eficientes para gerar energia; uma incineradora tem uma eficiência energética de 30% diante dos 80% da energia solar [4]. Por outro lado, as incineradoras são uma forma de incentivar a geração de resíduos, algo insustentável num mundo com recursos finitos e no qual tanto a UE como o Estado espanhol afirmam querer desacoplar o crescimento econômico da geração de resíduos. Finalmente, o objetivo de querer vender a queima de resíduos como benéfica para o meio ambiente está baseado exclusivamente em interesses empresariais e não de luta contra a mudança climática ou a favor de uma sociedade mais sustentável. É de vital importância que as autoridades deixem de cair continuamente em operações tão claras de greenwashing (lavado verde). A incineração contribui direta e indiretamente à mudança climática.



[1] "Waste-to-Energy and the revision of the waste framework directive" CEWEP, by Kees Wielenga Fact. (February 2008). 
[2] "A Changing Climate for Energy from Waste?", EUNOMIA, Dominic Hogg, March 6, 2006. 
[4] Murphy, J.D. and E. McKeogh (2004) "Technical Economic and environmental analysis of energy production from municipal solid waste", Renewable Energy 29 (7): 1043-1057.

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Joan Marc Simón é coordenador de GAIA (Global Alliance for Incineration Alternatives) na Europa. Publicado em www.sinpermiso.info
 


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