domingo, 18 de outubro de 2009

Entrevista com Zé Eduardo Nazário

RESISTÊNCIA OU EXÍLIO
Em entrevista exclusiva, Nazário conta como foi lançar o primeiro disco instrumental independente em plena ditadura

por Pedro Rosas
O período militar brasileiro, que assolou a produção cultural no final dos anos 60, tornou exígua qualquer esperança de se fazer música que não habitasse os territórios consentidos pelo governo. A repreensão foi sentida principalmente por artistas experimentais, na maioria vindos da música instrumental. Com a censura instaurada, muitos músicos foram obrigados a criar seus frutos em terras estrangeiras.
Junto a artistas consagrados internacionalmente, como Hermeto Pascoal, John MacLaughlin e Joe Zawinu, Zé Eduardo Nazário (baterista e compositor, indicado ao prêmio Grammy na categoria “best jazz performance”), foi um dos que souberam aproveitar a herança dos mestres exilados para derrubar os muros que embargavam a música experimental brasileira – lançando, com o Grupo Um, a primeira obra instrumental independente produzida no país: o disco “Marcha Sobre a Cidade”, de 1979.

Como foi trabalhar com música experimental numa época de censura intensa e irrestrita?
Em 1967, começamos a trabalhar uma música mais livre, dentro de uma nova concepção, que não copiasse nada. Trocávamos muitas idéias, buscando coisas diferentes, sem vídeo-cassete, internet, essas coisas. Não tínhamos escola, não tínhamos livros. Hermeto Pascoal e Airto Moreira traziam informações dos EUA. Mantínhamos uma amizade intensa. Quando fui trabalhar com o Hermeto, já buscava uma música mais livre, assimilando vários gêneros para criar alguma coisa nova. Hermeto foi o primeiro a fazer música instrumental profissionalmente no Brasil, dentro de uma sonoridade contemporânea e audaciosa. Nesse grupo, estavam meu irmão Lello e o baixista Zeca Assumpção. Começamos a trabalhar algumas composições. Em 1977, estava criado o Grupo Um.

“Marcha na Cidade” é o primeiro disco instrumental independente do Brasil. Como foi essa conquista?
Ao contrário de Hermeto Pascoal, que era conhecido e já havia tocado com Miles Davis, o Grupo Um encontrou um caminho muito difícil. Não havia mercado para música instrumental no Brasil. Então começamos a fazer as “Sessões Malditas”, todas às segundas-feiras, à meia-noite. Uma coisa alternativa mesmo, underground. Como as gravadoras não davam atenção, concluímos que era preciso produzir um disco independente. Assim lançamos “Marcha Sobre a Cidade” e arrumamos uma temporada no teatro Lira Paulistana. O sucesso fez com que vários grupos independentes também surgissem. Em 1983, a música instrumental começou a ganhar seu espaço. Paralelamente, eu, o Zeca Assunção e o Mauro Senize, trabalhávamos com o Egberto Gismont, que também nos ajudou a ganhar reconhecimento com a música de vanguarda. Com a entrada do rock, no entanto, houve uma mudança radical de mercado. Em 1984, o Grupo Um não produzia mais, e cada um seguiu seu caminho.

Ser precursor da música experimental e independente, em plena ditadura, não é pouca coisa.
Já havia música instrumental, mas não independente, de vanguarda. Ainda mais com o AI-5, em 1968, quando arrasaram tudo. Todos esses músicos que citei, partiram para EUA e Europa. Não sobrou ninguém. Reconstruímos a música a partir de uma terra devastada que colocou a novela em primeiro lugar. O povo ficava em casa, restrito a assistir televisão, com medo de sair às ruas. Foi a realidade que vivemos, de passar em “pente-fino” quando íamos tocar. O exército bloqueava as ruas, revistava todo mundo. Se não fossem com sua cara, metiam uma bala na cabeça e pronto.

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